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O Espírito de Penitência

A penitência interior e exterior na vida cotidiana

Para discutirmos o espírito de penitência, sua necessidade na vida cotidiana do católico e como empregá-lo, primeiro devemos partir da pergunta:

“Que é a penitência?”

Penitência origina-se do latim, pænitentia, e quer dizer, literalmente, arrependimento. Uma penitência é, portanto, um ato (ou série de atos) feitos voluntariamente por uma pessoa, devido à contrição (ou arrependimento) pelos pecados cometidos. Assim, podemos definir duas classes de penitências, as penitências interiores e as penitências exteriores.

No Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 1430 e 1431:

1430. Como já acontecia com os profetas, o apelo de Jesus à conversão e à penitência não visa primariamente as obras exteriores, «o saco e a cinza», os jejuns e as mortificações, mas a conversão do coração, a penitência interior: Sem ela, as obras de penitência são estéreis e enganadoras; pelo contrário, a conversão interior impele à expressão dessa atitude com sinais visíveis, gestos e obras de penitência (18).

1431. A penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um regresso, uma conversão a Deus de todo o nosso coração, uma ruptura com o pecado, uma aversão ao mal, com repugnância pelas más ações que cometemos. Ao mesmo tempo, implica o desejo e o propósito de mudar de vida, com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda da sua graça. Esta conversão do coração é acompanhada por uma dor e uma tristeza salutares, a que os Santos Padres chamaram animi cruciatus (aflição do espírito), compunctio cordis (compunção do coração) (19).

Já as penitências exteriores são o que chamamos de mortificações. São castigos para a carne. Na pergunta 43 de seu resumo do catecismo, São Pio X escreve que “Vencem-se as tentações com vigilância, oração e mortificação cristã”. Por mortificação cristã, pretende-se dizer: “privar-se, por amor de Deus, daquilo que agrada, e aceitar o que desagrada aos sentidos ou ao amor próprio”. Em instantes aprofundaremos mais nas mortificações.

Por que devemos fazer penitência?

Nosso Senhor nos urge a fazê-la. Diz em Mc 1,15: “O tempo chegou e o reino de Deus está próximo. Fazei penitência e crede no evangelho”.

É exortada por muitos santos como uma das formas infalíveis de combater o pecado mortal, isto é, quando combinada com penitências interiores e um espírito de amor a Cristo. Alguns exemplos:

  • São Pio X, como já vimos;

  • São Bento de Núrsia, em sua regra, capítulo 4º;

    “Quais são os instrumentos das boas obras? [...] 10. Abnegar-se a si mesmo para seguir o Cristo / 11. Castigar o corpo / 12. Não abraçar as delícias / 13. Amar o jejum / 14. Reconfortar os pobres [...]”

  • São Josemaria Escrivá, em Caminho, ponto 180;

    “Onde não há mortificação, não há virtude.”

Se não conseguirmos sustentar um sofrimento voluntário, como o da penitência, como conseguiremos suportar um sofrimento involuntário, que é o da tentação?

Como cultivarmos o espírito de penitência?

Em primeiro lugar, como vimos, deve-se buscar a penitência interior, isto é, a contrição dos pecados e a vida de oração. A reza diária de atos de contrição e a oração mental podem ajudar bastante a desenvolver esta penitência interior. A penitência interior, também, coage-nos a realizar penitências exteriores, pois a verdadeira contrição dos pecados busca sempre uma forma de castigar-se por eles.

Com respeito às obras de penitência, podemos reduzi-las em três grandes espécies: a oração, a esmola e o jejum.

  • Oração: toda espécie de exercícios de piedade;
  • Esmola: toda e qualquer obra de misericórdia espiritual e corporal; e
  • Jejum: toda a espécie de mortificação.

O bom exercício da penitência utiliza-se das três espécies. Somos comandados a orar sem cessar (1Ts 5,17), a jejuarmos (Mt 6,17) e a darmos esmola (1Pe 4,8).

Sobre a oração, recordemos que ela acompanha toda a vida penitencial. Sobre as esmolas, o Evangelho ensina:

“Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, irá recompensar-te.” (Mt 6,2-4)

Sobre o jejum, ou, melhor dizendo, as mortificações corporais, as instruções podem ser um pouco mais confusas. É preciso saber o que fazer, como fazer e quando fazer para que não se adiram a extremos desnecessários ou obras vãs. Por exemplo, não faz sentido uma alma que não pratica a oração mental adotar o uso do cilício e da disciplina, mas pode acabar por fazê-lo se não tiver a instrução adequada. Uma regra geral que se pode dar é, caso considere que está apto a tolerar tão pesadas mortificações, consultar o diretor espiritual. Mas deve-se começar as mortificações de pouco em pouco. Em primeiro lugar, definir para si uma hora de dormir, uma hora de acordar e horários para rezar. Dormir no horário prescrito envolve mortificação, às vezes grande mortificação. Outras coisas que deve-se associar a isso, antes de pensar em penitências pesadas como as mencionadas anteriormente, podem ser: rezar as orações da manhã e da noite, bem como a meditação e o Santo Terço, de joelhos. Também, fazer a abstinência de carne às sextas-feiras (essa, inclusive, sob pena de pecado mortal, segundo o artigo 1251 do CDC), e, se possível, acrescentá-las ao jejum, ou à abstinência uma segunda vez na semana, preferencialmente na quarta-feira ou no sábado. Enfim, muitas são as mortificações que um católico deve empregar em sua vida cotidiana, mas sempre exercitando a prudência e sempre procurando consultar-se com o confessor ou diretor espiritual.

Conclusão

Espero que este texto tenha ajudado de alguma forma a sanar as possíveis dúvidas que ficam com respeito ao espírito de penitência exigido pela Quaresma, a qual foi instituída a fim de imitarmos, de algum modo, o rigoroso jejum de quarenta dias que Jesus Cristo observou no deserto, e a fim de nos prepararmos, por meio da penitência, para celebrar santamente a festa da Páscoa. Fique com Deus e, se possível, inclua-me em suas orações.

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