Segundo os Santos Evangelhos, iluminados pela Tradição da Igreja
Entre os santos que Deus dispôs em torno do mistério da Encarnação, nenhum recebeu, depois da Santíssima Virgem, ofício tão elevado quanto São José. A ele foram confiados Jesus Cristo, Filho eterno de Deus feito homem, e Maria Santíssima, sua verdadeira esposa. Foi constituído chefe e guardião da Sagrada Família e pai virginal, legal e nutrício de Jesus, exercendo verdadeira autoridade paterna por disposição divina, sem qualquer prejuízo da virgindade perpétua de Maria nem da verdade da concepção virginal do Salvador.
A grandeza de seu ofício permaneceu escondida sob a pobreza, o trabalho cotidiano e o silêncio. Os Evangelhos não conservaram nenhuma palavra pronunciada por São José, nem nos transmitiram as circunstâncias de sua infância, sua idade ou sua aparência. Narraram apenas os acontecimentos diretamente relacionados com a missão que recebeu de Deus; esses poucos acontecimentos, contudo, bastam para revelar o homem justo, obediente e fiel, escolhido para servir ao mistério da Encarnação e guardar, com prudência, fortaleza e humildade, Jesus e Maria.
I. Da casa de Davi
“Jacob gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo.” — São Mateus 1,16
São José pertencia à casa e à família de Davi. Descendia da antiga linhagem dos reis de Judá, mas vivia longe dos palácios e das grandezas humanas, entre os homens simples de Israel. Assim o dispôs a divina Providência: o Messias prometido devia manifestar-se como filho de Davi, mas sua realeza não seria inicialmente apresentada pelo poder das armas nem pelo esplendor das riquezas. O Filho de Deus entraria no mundo sob a guarda de um descendente de Davi que vivia do trabalho de suas próprias mãos.
A genealogia apresentada por São Mateus conduz a sucessão dos patriarcas e dos reis até José. O evangelista não afirma que Jesus tenha sido gerado por ele segundo a carne, pois o Salvador foi concebido virginalmente por obra do Espírito Santo; afirma, porém, que José era esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. Por seu verdadeiro matrimônio com a Santíssima Virgem e pela paternidade legal que recebeu de Deus, São José inseriu juridicamente Jesus em sua casa e na linhagem de Davi, dando-lhe publicamente o nome determinado pelo anjo.
Essa pertença segundo a lei harmonizava-se com a verdade da descendência davídica segundo a carne. É certo que Cristo nasceu da estirpe de Davi segundo a carne e, tendo recebido sua humanidade unicamente de Maria, também sua Santíssima Mãe pertencia à descendência davídica. Os Evangelhos, entretanto, não nos transmitiram uma genealogia própria da Virgem, nem determinam expressamente por qual ramo ela descendia de Davi.
A antiga dignidade real permanecia, portanto, escondida naquele homem humilde de Nazaré. José descendia de reis, mas viveu como servo de Deus. Foi chamado a guardar o Rei dos reis, sem procurar para si outra honra além do fiel cumprimento da vontade divina.
II. Esposo da Virgem e homem justo
“José, seu esposo, sendo justo, e não a querendo difamar, resolveu deixá-la secretamente.” — São Mateus 1,19
Maria estava verdadeiramente desposada com José, isto é, unida a ele por verdadeiro vínculo matrimonial, quando começou a manifestar-se exteriormente o mistério que o Espírito Santo havia realizado nela. O Evangelho não revela com exatidão o que São José conhecia naquele momento, nem determina todos os pensamentos que o levaram a considerar a possibilidade de deixá-la secretamente.
A tradição católica recebeu mais de uma interpretação dessa passagem. A explicação particularmente favorecida por São Bernardo e acolhida por São Tomás entende que José, confiando na pureza de Maria e reverente diante de um mistério que não compreendia, julgou-se indigno de permanecer junto dela e pensou retirar-se discretamente. Outros Padres entenderam que ele ainda ignorava a origem divina da concepção. Cornélio a Lápide, conservando a reverência devida à santidade de ambos, descreve sobretudo a perplexidade de José diante de um acontecimento cuja causa ainda lhe era desconhecida. Nenhuma dessas explicações constitui artigo de fé; o texto evangélico afirma com certeza que José era justo e que não quis expor Maria à infâmia.
Nessa palavra — justo — encontra-se o retrato espiritual de São José. Era um homem que temia a Deus e ordenava seus atos segundo a reta consciência; sua justiça, porém, não estava separada da misericórdia. Na obscuridade daquela prova, não agiu com precipitação nem formulou juízo temerário, mas guardou silêncio e resolveu retirar-se discretamente. Antes mesmo de receber a explicação do anjo, preservou a honra da Virgem, mostrando-se capaz de agir com prudência, justiça e caridade diante de um mistério cujo pleno alcance ainda não lhe havia sido revelado.
III. A revelação do anjo
“Ao despertar José do sono, fez como lhe tinha mandado o anjo do Senhor.” — São Mateus 1,24
Enquanto José considerava o que deveria fazer, um anjo do Senhor apareceu-lhe em sonhos e disse: “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, porque o que nela foi concebido é obra do Espírito Santo.”
O anjo anunciou-lhe que Maria daria à luz um filho e que ele deveria dar-lhe o nome de Jesus, porque salvaria seu povo dos pecados. Com essa revelação, José recebeu uma missão determinada: conservar consigo Maria, sua verdadeira esposa, guardar o mistério da Encarnação e exercer junto de Jesus o ofício de pai virginal.
Dar o nome ao Menino significava exercer uma função propriamente paterna segundo a lei. Caberia a José manifestar publicamente sua paternidade legal, inserir Jesus em sua casa e assumir os direitos e deveres relativos à sua guarda, sustento e educação, sem qualquer participação na geração segundo a carne.
A resposta de José manifestou-se por suas obras. Ao despertar, fez como o anjo lhe havia ordenado: não pediu novos sinais, não apresentou condições nem adiou o cumprimento da ordem recebida. Recebeu Maria em sua casa e assumiu plenamente a responsabilidade de proteger a Mãe e o Filho. A partir daquele momento, seu trabalho, suas viagens e suas forças seriam empregados no serviço daqueles que Deus havia confiado aos seus cuidados.
Deus falava, e José obedecia. Seu silêncio não era inércia, mas docilidade. Não respondeu ao céu com discursos; respondeu oferecendo a própria vida.
IV. A viagem a Belém
“José foi também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, que se chamava Belém.” — São Lucas 2,4
Por ordem de César Augusto, foi decretado um recenseamento, e cada um deveria apresentar-se na cidade de sua família. José deixou Nazaré e dirigiu-se a Belém, cidade de Davi, levando consigo Maria, sua esposa, que estava próxima de dar à luz. A determinação da autoridade civil servia, sem o saber, aos desígnios da Providência: o Salvador devia nascer em Belém, e José, ao cumprir um dever aparentemente comum, conduziu a Santíssima Virgem ao lugar indicado pelas profecias.
Quando chegaram, não encontraram lugar na hospedaria. Jesus nasceu na pobreza e foi reclinado numa manjedoura. José, descendente da casa real de Davi, não pôde oferecer-lhe um palácio; ofereceu-lhe, porém, sua presença, seu trabalho e sua proteção. Um anjo anunciou aos pastores o nascimento do Salvador, e a multidão celeste louvou a Deus. Eles foram a Belém e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura. São José aparece junto de Jesus e de Maria, ocupando silenciosamente o lugar que Deus lhe havia destinado.
O Filho de Deus, sem deixar de ser verdadeiro Deus, assumira verdadeiramente a natureza humana. Segundo a humanidade que recebera da Virgem, submeteu-se às condições próprias da infância e recebeu de Maria e José os cuidados necessários à vida corporal. Na Sagrada Família, São José exercia verdadeira autoridade paterna, recebida de Deus para o governo e a proteção da casa. O Verbo encarnado, sem deixar de ser Senhor de todas as coisas, quis viver na condição de filho e permanecer sob a guarda e o governo do humilde descendente de Davi.
V. Pai virginal e guardião de Jesus
“Seu pai e sua mãe estavam admirados das coisas que dele se diziam.” — São Lucas 2,33
Ao oitavo dia, o Menino foi circuncidado e recebeu o nome de Jesus, conforme o anjo havia determinado. Segundo o ofício paterno que lhe fora confiado, São José providenciou o cumprimento do rito e impôs ao Menino o nome de Jesus, exercendo publicamente seu direito e seu dever de pai segundo a lei.
O Evangelho aplica-lhe o nome de pai segundo o modo comum de falar e em conformidade com a realidade de seu ofício. José não foi pai de Jesus por geração natural; sua paternidade, contudo, não era aparente nem meramente simbólica. Fundada em seu verdadeiro matrimônio com Maria e na missão recebida de Deus, era verdadeira paternidade na ordem legal, familiar, educativa e nutrícia. Por isso, a tradição da Igreja o chama pai virginal, pai legal, pai nutrício e pai putativo do Salvador — putativo no sentido evangélico de ser tido publicamente como pai, e não no sentido de possuir uma paternidade fictícia.
Essa paternidade não diminuía a verdade da concepção virginal. Ao contrário, servia aos desígnios da Providência, dando à Sagrada Família uma verdadeira constituição doméstica e protegendo o mistério da Encarnação, permanecendo intacta a virgindade perpétua da Mãe de Deus.
Cumpridos os dias prescritos pela Lei, José e Maria levaram Jesus a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor. Ofereceram um par de rolas ou dois pombinhos, oblação prevista para aqueles que não podiam oferecer um cordeiro, manifestando assim a condição humilde em que vivia a Sagrada Família. No templo, o santo ancião Simeão tomou o Menino nos braços e proclamou que seus olhos haviam visto a salvação preparada diante de todos os povos. José e Maria admiravam-se das coisas que se diziam de Jesus.
Essas manifestações confirmavam diante de São José a grandeza do mistério confiado à sua guarda. Seu ofício paterno consistia em servir a uma missão que procedia inteiramente do Pai celeste. Sua autoridade familiar era verdadeira, mas ministerial e inteiramente ordenada ao serviço dos desígnios divinos: não cabia a José determinar para Jesus uma missão fundada em projetos humanos, mas guardar o Menino e exercer sobre ele os cuidados de pai para o cumprimento da obra estabelecida por Deus.
VI. A fuga para o Egito
“E ele, levantando-se de noite, tomou o menino e sua mãe, e retirou-se para o Egito.” — São Mateus 2,14
Depois da visita dos magos, um anjo do Senhor apareceu novamente a José em sonhos e ordenou-lhe que se levantasse, tomasse o Menino e sua Mãe e fugisse para o Egito, pois Herodes procuraria matar a criança. José não discutiu a ordem nem esperou o nascer do dia. Levantou-se durante a noite, tomou aqueles que lhe haviam sido confiados e partiu; a urgência do perigo encontrou nele uma obediência imediata.
A fuga obrigou-o a deixar sua casa, seu trabalho e sua terra. Tornou-se estrangeiro para proteger a vida do Menino e precisou procurar abrigo e sustento numa região desconhecida, sem saber por quanto tempo ali permaneceria. Nenhuma queixa sua é registrada pelo Evangelho. O mesmo homem que obedecera recebendo Maria em sua casa obedecia agora deixando sua pátria.
Enquanto Herodes procurava conservar o trono pela violência, José protegia humildemente o verdadeiro Rei de Israel. Herodes possuía soldados e palácios; José atravessava a noite levando consigo uma mulher e uma criança. Era, contudo, por meio da obediência daquele homem humilde que Deus preservava o Menino dos desígnios do perseguidor.
Depois da morte de Herodes, o anjo apareceu novamente a José e ordenou-lhe que regressasse à terra de Israel. Ele levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe e voltou. Ao saber, porém, que Arquelau reinava na Judeia, receou dirigir-se para aquela região e, avisado em sonhos, retirou-se para a Galileia, estabelecendo-se em Nazaré. Sua prudência permanecia subordinada à direção divina: considerava os perigos e agia segundo as advertências e ordens recebidas de Deus.
VII. O carpinteiro de Nazaré
“Porventura não é este o filho do carpinteiro?” — São Mateus 13,55
Em Nazaré, São José vivia do trabalho de carpinteiro. O Evangelho não o apresenta entre os ricos, os doutores da Lei ou os chefes do povo, mas entre os homens que sustentavam sua casa por meio de um ofício manual. Esse trabalho fazia parte da missão que havia recebido: pelo esforço cotidiano de suas mãos, José providenciava o necessário para Jesus e Maria. A madeira que lavrava, os instrumentos que manejava e os serviços que prestava tornaram-se meios pelos quais servia ao próprio Filho de Deus feito homem.
A vida de Nazaré transcorria longe das aclamações do mundo. Ali vivia o Verbo eterno, desconhecido da maior parte dos homens e obediente, na vida comum da família, a Maria e a José. Ali vivia a Mãe de Deus, ocupada com os deveres de uma casa humilde. Ali trabalhava José, governando, protegendo e sustentando sua família como chefe da casa.
A dignidade daquela morada não procedia dos bens que possuía, mas das pessoas que nela habitavam. José tinha pouco segundo o mundo, mas vivia na presença de Jesus e de Maria, e cada uma de suas ações comuns era realizada no serviço imediato do mistério da Encarnação. O título de carpinteiro, que poderia parecer humilde aos olhos dos homens, tornou-se uma de suas honras. Por ele, São José aparece como modelo daqueles que santificam o trabalho e cumprem fielmente os deveres do próprio estado, sem procurar o reconhecimento humano.
VIII. O Menino encontrado no templo
“Eis que teu pai e eu te procurávamos cheios de aflição.” — São Lucas 2,48
José e Maria iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa. Quando Jesus tinha doze anos, acompanhou-os segundo o costume. Terminados os dias da festa, o Menino permaneceu em Jerusalém sem que eles o percebessem. Julgando que estivesse na comitiva, caminharam durante um dia; depois, como não o encontraram entre os parentes e conhecidos, voltaram a Jerusalém para procurá-lo.
Durante três dias, José compartilhou com Maria a aflição daquela busca. O Evangelho não conserva suas palavras, mas a Santíssima Virgem manifesta a dor de ambos: “Teu pai e eu te procurávamos cheios de aflição.”
Encontraram Jesus no templo, sentado entre os doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Quando Maria lhe perguntou por que havia procedido daquele modo, Jesus respondeu que devia ocupar-se nas coisas de seu Pai. Com essas palavras, o Senhor manifestava sua relação eterna e natural com o Pai celeste. Entretanto, desceu com Maria e José, voltou para Nazaré e permaneceu-lhes submisso.
Essa submissão não era mera aparência. Na vida humana que assumira, o Filho eterno de Deus quis obedecer verdadeiramente a Maria e a José. São José exercia, portanto, verdadeira autoridade paterna sobre Jesus no governo da família, autoridade recebida de Deus, subordinada ao Pai celeste e inteiramente ordenada ao cumprimento da missão do Salvador.
Depois desse episódio, os Evangelhos não narram outros acontecimentos da vida pessoal de José. Quando Jesus iniciou sua vida pública, era ainda conhecido como filho de José e como filho do carpinteiro; São José, porém, já não aparece na narrativa evangélica.
A Sagrada Escritura não descreve sua morte nem determina as circunstâncias em que ocorreu. De sua ausência durante a vida pública de Cristo e, sobretudo, nas narrativas da Paixão, a tradição cristã conclui, com grande probabilidade, que tenha morrido antes desses acontecimentos. Que tenha expirado assistido por Jesus e Maria é venerável opinião piedosa, muito recebida entre os fiéis, mas não constitui fato narrado expressamente pelos Evangelhos.
A vida evangélica de São José termina, assim, no mesmo silêncio em que se desenvolveu. Nenhuma de suas palavras foi conservada. Outros servos de Deus anunciaram sua missão por meio de discursos; José realizou a sua pela obediência. Recebeu Maria em sua casa, deu ao Menino o nome de Jesus, conduziu-os a Belém, levou-os para o Egito, trouxe-os de volta à terra de Israel, procurou Jesus em Jerusalém e sustentou a casa de Nazaré com seu trabalho.
Seu silêncio não significava ausência nem inatividade, mas era fruto da profunda vida interior de um homem inteiramente dedicado a Deus e aos deveres de sua vocação. José não procurou tornar-se conhecido, porque sua missão era guardar Jesus; não procurou ser servido, porque encontrava sua honra em servir; não procurou as grandezas do mundo, porque os maiores tesouros da criação haviam sido confiados à sua guarda.
Assim o apresentam os Santos Evangelhos, iluminados pela Tradição da Igreja: descendente de Davi sem trono, verdadeiro e virginal esposo da Mãe de Deus, pai legal e nutrício do Salvador, trabalhador sem riquezas, exilado obediente, chefe da Sagrada Família e servo fiel dos desígnios divinos. Sua vida foi humilde porque permaneceu escondida; obediente porque se conformou à vontade de Deus; silenciosa porque estava inteiramente ordenada à guarda do Verbo feito carne.
Por isso, a Igreja contempla em São José o homem justo e fiel, escolhido para velar sobre os primeiros anos da vida terrena de Cristo. Sob sua autoridade paterna, Jesus cresceu em sua condição humana; por seu trabalho, recebeu o sustento cotidiano; por sua prudência, foi protegido dos perigos; e, em sua casa, viveu submetido à ordem comum da família.
Nada disso aconteceu diante das multidões. Os olhos de Deus, porém, repousavam sobre aquele servo, e aquilo que permaneceu escondido aos homens constituiu uma das mais elevadas missões confiadas a uma criatura na ordem da Encarnação.