Os Espólios da Guerra
Rodolfo Ventura · 2025-12-01 · 9 min de leitura
Civilização, cultura e cosmovisão
Tive a ideia que hoje introduzirei a explicar de forma semelhante à que Proust teve a de seu Em Busca do Tempo Perdido: de um acontecimento aparentemente fugace e banal, fisguei não só um tema, mas o princípio de uma doutrina e instrução que julgo ser unicamente capaz de ser levada a termo na forma da série dos colóquios que me disponho a ministrar. Peço-lhes vênia pelas lacunas, que são muitas, e espero que as possamos completar gradativamente.
Estava lendo uma biografia de Mao Zedong, quando, à altura da perseguição do regime chinês ao povo tibetano, me deparei com isso: “[Sobre os tibetanos] Mas, sobretudo, tinham identidade, língua e religião próprias, que possibilitavam a organização em segredo” [1]. Me lembrei, imediatamente, da frase do professor Olavo sobre as reminiscências de uma nação quando seu tempo sobre a terra acaba: “Língua, religião e alta cultura são os únicos componentes de uma nação que podem sobreviver quando ela chega ao término da sua duração histórica” [2]. Daí, a empresa desta série: tentar compreender, em conjunto, quais são os elementos de identidade/cultura, língua e religião que permitiriam uma coesão interna, se não abarcadora e capaz de dar vida à nossa volta, permitir que sejamos nós mais vivos que a média. Mas creio ser a primeira alternativa altamente possível: se em terra de cego mesmo os que dizem ter um olho são reis, que dirá os que efetivamente enxergam, e, em uma nação que não sabe quem é, quem lhe aponta a silhueta define-lhe as formas. Partamos, pois.
O conceito de civilização [3] tem, nas discussões mais ou menos formais, comumente sua definição confundida entre a Civilização, ideal das Luzes, uma civilização enquanto descrição específica de uma civilização, com suas especificidades de hábitos e instituições, e a definição mesma do termo. Detenhamo-nos nesta. A civilização é, ato e potência, manifestação dos ideais do homem. Ato enquanto realização, mais ou menos adequada, dos ideais humanos. Potência enquanto processo que impele o homem à realização de si.
Pode-se dividir a natureza do homem, no âmbito civilizacional, em espírito e matéria. Aquela representaria a força modeladora do homem sobre o meio — a cultura propriamente dita; esta, a pressão do meio sobre o homem — a natureza. Podemos, ainda, dividir os fatores naturais de pressão entre os extrínsecos e os intrínsecos ao homem. Quanto ao espírito, voltaremos a ele em breve, mas guardem que, enquanto partes, não podem deixar de formar um todo harmônico.
Os fatores naturais extrínsecos são uma série de condições externas ao homem — em seu todo —, que lhe escoima, mas não o amputa, de seu poder total de ação: o ambiente, certamente dinâmico sem o homem, é mais mutável por sua ação — e diferentes homens exercem papéis diversos ante o mesmo cenário. O homem é também um fator geográfico. Os fatores naturais intrínsecos são as questões etnorraciais. Trata-se de um problema, científico e político, “falso”: salvo comunidades isoladas [4], os grupos humanos são constituídos de forma pesadamente heterogênea. Além disso, diversos grupos agregaram-se em civilizações notáveis. Tal relação, entre raça e civilização, serve para dar gênese ao conceito de raça histórica: uma raça constituída mais pela concordância de partilhar uma herança social e cultural do que por fatores estritamente genéticos; trata-se de uma família cujo parentesco espiritual sobrepõe o do sangue. Assim, deixemos a raça stricto sensu aos animais e a raça lato sensu a nós homens, filhos não só de nossos pais, mas de nossa cultura.
Retornando à cultura, colocamo-la como a impressão do labor na natureza, visando tornar excelentes seus frutos. Culto é o homem não meramente instruído, mas também de bons corpo, espírito, juízo e sentimentos [5]. A cultura, ao mesmo tempo que reflete a grandeza que o homem pode atingir, aponta para sua dependência enquanto ser cultural: mesmo o organismo humano mais fisiologicamente independente é culturalmente “coxo”, necessitando do aporte cultural do meio [6]. Desse modo, podemos começar a ver que o homem culto, alimentado pelos bens culturais previamente produzidos, também produz bens de cultura, sendo esta um fenômeno social, parte da civilização, pois nenhum homem se cria sozinho — Rômulo e Remo foram amamentados pela Lupa Capitolina, não criados por ela; caso contrário, não falaríamos o latim, mas o latiríamos.
Desses três elementos centrais — a terra que o nutre, a raça que lhe dá as carnes, a cultura que o acalenta —, forma-se a civilização. Dos seus frutos, destacamos a Ciência, a Arte, a Técnica, o Direito, o Estado.
A ciência é conhecimento pelas causas, que permite ao homem compreender a razão das coisas que o cercam. Dela, nasce a Filosofia, flor do conhecimento.
A Arte é o ofício criador que tem por fim o Belo, meio pelo qual vemos, extáticos, o Bem e a Verdade. A beleza se atinge pela abstração do egoísmo, buscando a consonância com o Cosmo [7]. A Arte é elemento-síntese de uma civilização.
A Técnica é a Ciência aplicada visando o ordenamento social, que é instrumento, não fim; que traz comodidade, não plenitude.
O Direito é a regulação e aperfeiçoamento das relações sociais, é a elevação do que é e ao que deve (e pode) ser.
O Estado é a forma suprema da organização do direito de um povo.
Podemos, daqui, apontar para graus crescentes de complexidade na relação entre os homens: nascemos na família, fruto de vínculos de sangue, descobrimo-nos parte de um povo, com menor peso de nossa ascendência e maior de nosso vínculo geográfico (não meramente territorial), e chegamos à nação, unidos pelo vínculo de anseios em comum. No povo, ainda domina nos grupos humanos o aspecto material do homem; na nação, passa a predominar o aspecto espiritual. Há ainda a pátria, fruto da confluência entre um território e os antepassados de certo grupo. Difere da nação pois esta traz em sua definição maior enfoque na cultura do grupo, concretizada nos frutos mencionados, além da língua, das tradições e costumes — abarcando (totalmente ou não) as ideias de pátria e povo. Além disso, não basta à nação o conjunto de elementos comuns: é necessário tomar ciência desses elementos e trazê-los para junto de si, pois cada nação, assim fazendo, traz consigo sua parcela de contribuição para o progresso humano. Resumimos, portanto, a missão de uma nação para com seu patrimônio: conservar, defender, perpetuar [8].
Retornando brevemente ao Estado, este aparece como último estágio na evolução de uma nacionalidade, servindo ele para encouraçá-la, protegendo-a sem estrangulá-la. Pois, sendo a criação última de um processo eminentemente humano, serve o Estado — e toda a cultura, a montante — à pessoa humana.
Em toda cultura, há uma cosmovisão, uma perspectiva a partir da qual se ordena a relação entre os seres. Uma civilização age buscando um resultado que julga ideal, resultado este baseado nesta cosmovisão. Tal ideal é o que motiva a ação, não havendo esta sem aquela. E, havendo ações e objetivos intermediários, devem estes levar à obtenção do fim desejado, e devem os fins intermediários subordinar-se ao fim último.
Ao mesmo tempo, a civilização é fato, fruto das ações prévias cujas proporções resultantes mesmas são vistas à luz de um modelo, e o indivíduo age conforme o modelo, de forma mais ou menos perfeita, conforme tem consciência de sua esfera de ação, e dilata sua esfera de ação à medida que mais humano se torna o homem. Ainda, tendo em vista o que se põe diante de seus olhos, o homem age visando perpetuar ou corrigir o resultado prévio, sob a ótica da cosmovisão que norteia suas ações.
A penetração de uma cosmovisão depende primeiramente de sua organização e sistematização, geralmente por uma inteligência particularmente brilhante, e é feita conjuntamente, com os feitos daquele por núcleo, por outras inteligências, que penetram e influem no tecido social circunjacente. Não é, de maneira alguma, um cisto, fechado em si mesmo. Não é incomum que, de um sistema filosófico daí derivado, derive-se uma religião.
Há, entretanto, um espaço, um desnível, entre a cosmovisão proposta e as instituições e aspectos culturais que dela derivam no mundo — o que não diminui o peso e a importância dessa cosmovisão. É ante essa cosmovisão, e mediante ela, que a cultura deve, em suas partes, ser integrada num todo proporcional e hierárquico, capaz de apontar o que é prioritário ou não.
Também por conta disso, é através da cosmovisão que se estabelecem os juízos de valor sobre os bens culturais. São eles que, apontando para um meio de vida ideal, norteiam as ações sobre o estado real das coisas. A cultura enquanto forma influenciando a natureza enquanto matéria, definindo o que permanece e se cultiva e o que se deixa definhar ou se arranca pelas raízes. Por isso, e tendo em vista que a matéria age como princípio individuante de cada civilização, pode-se dizer que diversas civilizações têm o mesmo substrato cultural, e daí podemos distinguir civilizações cristãs e pagãs. A primeira reconhece o espírito, e a segunda se fundamenta nas teses do materialismo.
Notas
- Biografia de Mao por Jung Chang e Jon Halliday. Itálicos meus. Todas as citações diretas podem ser consultadas diretamente nas obras ao fim do colóquio. Em quesito de fontes, devemos agir qual os bereanos (At 17,11-12).
- “O Orgulho do Fracasso”, em O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser Um Idiota.
- Os conceitos a partir daqui, salvo expresso dizer em contrário, são sumarizados d’A Crise do Mundo Moderno, do Pe. Leonel Franca, S.J.
- Para avaliar as consequências do efeito da endogamia — não do relativismo cultural, bem entendido —, vale a pena passar os olhos sobre o efeito do fundador.
- Dn 5,12-13.
- Sobre a ideia da Criança Feral, ver o capítulo “Feral Children”, de Dombrowski et al. (2011).
- “Criador inefável, que, em meio aos tesouros de Vossa Sabedoria, elegestes três hierarquias de anjos e as dispusestes em uma ordem admirável acima dos Céus, que dispusestes com tanta beleza as partes do universo” — Oração de São Tomás de Aquino.
- Não nos parece ter o Pe. Leonel Franca distinguido suficientemente civilização e nação.
Comentários
Carregando comentários...
Deixar um comentário